Quadro Internacional Global Político, Económico e Tecnológico dos Próximos Anos

Eurico Brilhante Dias, Secretário de Estado da Internacionalização, deu o arranque ao debate do workshop Exportadoras Outstanding, que aconteceu no dia 24 de setembro, na Porto Business School: “Este ano devemos ter 35 a 36% do peso das exportações no PIB, sendo eu razoavelmente otimista”. Em 2019 o peso das exportações no PIB tinha atingido os 40%. A queda em 2020 é de cerca de 40% nos bens e chega aos 50% nos serviços, nomeadamente no turismo e transporte aéreo. O governante defendeu a necessidade de Portugal ter mais empresas exportadoras e que estas exportem para mais destinos, servindo mais mercados e diversificando o mais possível as exportações, nomeadamente de bens.

“Acredito que, retomada a confiança e encontrada a solução para o problema sanitário, o pais retomará um crescimento considerável das suas exportações, isto se conseguirmos aguentar parte do trabalho que já fizemos”, referiu o Secretário de Estado, assumindo que “é necessário atrair mais investimento direto estrangeiro para Portugal”.

O workshop dedicado ao tema o “Quadro internacional político, económico e tecnológico para os próximos anos” prosseguiu com uma apresentação de Pedro Braz Teixeira, Diretor do Gabinete de Estudos do Forum para a Competitividade: “Temos um intervencionismo de muito fraca qualidade, as regras mudam porque sim, conforme mudam os ministros. Mais intervencionismo não é a solução”, apontou.
O economista defendeu também a redução da taxa de IRC como forma de captar mais investimento: “Devíamos ter uma taxa de IRC mais baixa com menos exceções. Há muitos investidores que desistem de Portugal por termos uma taxa de IRC tão elevada à partida. Seria muito mais interessante termos menos exceções e uma taxa de IRC menos proibitiva para não afugentar investidores”.

Competitividade, estabilidade e escala

Num painel de debate moderado pelo economista Daniel Bessa, os empresários apontaram alguns fatores críticos que vão determinar a forma como a economia se vai comportar nos próximos anos.

“Sem previsibilidade um business plan é um mero exercício”, afirmou João Nuno Magalhães, Chefe de Gabinete do Chairman da Jerónimo Martins, uma das empresas patrocinadoras do projeto Exportadoras Outstanding. O grupo opera em três mercados completamente diferentes: Portugal, Polónia e Colômbia, sendo que o mercado nacional é o que mais está a cair devido à crise provocada pela pandemia. João Nuno Magalhães deu exemplos do que leva os investidores a escolherem um mercado em detrimento de outro: “O investidor estrangeiro tem importância para a Colômbia e encontrámos lá uma estabilidade. Enquanto exportadores, é natural que os investidores procurem esta estabilidade”.

O setor dos vinhos esteve representado neste debate por António Marquez Filipe, Administrador da Symington, que abordou as questões da competitividade no negócio dos vinhos: “Temos um problema de competitividade muito grande, pelo preço não conseguimos competir com a maioria dos países”. Portugal está no 10º lugar em termos de área de vinha em relação ao território do país, mas a faturação em 2019 foi apenas de 820 milhões de euros. Por comparação, só a região francesa de Champanhe faturou, no ano passado, 5 mil milhões de euros, dos quais 3 mil milhões foram exportados.

O empresário destacou a necessidade de, também no setor do vinho, se aumentar a escala das empresas. “Tudo em Portugal se faz para as PME, nada contra, mas não são essas empresas que vão abrir portas à exportação”, referiu.

A distribuição de apoios foi uma questão também abordada por Luís Castro e Almeida, Administrador Delegado do BBVA em Portugal, que sublinhou a importância de direcionar com critério os fundos que vão entrar na economia: “Este dinheiro tem que ser dirigido para onde nunca foi dirigido. O dinheiro tem sido dirigido para as PME ou empresas muito grandes que beneficiavam de investimento público. Nunca foi direcionado para as médias empresas, que são as que precisam de aumentar a sua dimensão, de se internacionalizar e exportar mais ou exportar, no caso daquelas que ainda não exportam”. Luís Castro e Almeida defendeu ainda que capitalizar as empresas vai ser fundamental, mas que terá que ser feito com outras regras: Se continuarmos a trabalhar como até aqui, as empresas acionam as garantias e criam mais divida pública, as regras vão ter que mudar”.

Outra entidade bancária parceira do projeto Exportadoras Outstanding é a Caixa Geral de Depósitos. Miguel Namorado Rosa, Diretor da CGD, referiu neste debate que O mundo pós-Covid será muito mais endividado, vamos assistir a um aumento exponencial da dívida mundial de aproximadamente 30% na sequência da pandemia”, uma realidade que vai trazer consequências como uma tributação muito maior, tendo em conta que os Estados têm que financiar os gastos públicos, ideia também apontada pelo diretor da CGD.

O imperativo da digitalização

A par da necessidade de uma reindustrialização da Europa, a digitalização foi outro tema transversal a todo o debate. Neste aspeto, Portugal apresenta bons parâmetros no que diz respeito a infraestruturas, mas níveis de competências baixos por parte da população. Cândida Santos, professora na Porto Business School apresentou alguns dados sobre as competências digitais dos portugueses. O país ocupa o 19° lugar no Índice de Digitalidade, entre os 28 estados membros da EU. Quase metade da população portuguesa (48%) não possui as competências digitais básicas e 26% não possui qualquer competência digital. Os números revelam ainda que apenas 16% das PME faz negócios por via digital. “É necessário incutir este sentido de mudar rapidamente porque o digital não é uma opção, é uma inevitabilidade”, alertou Cândida Santos.