As exportações portuguesas em 2020: Condições para a recuperação das empresas e da economia

O VI Workshop do projeto Exportadoras Outstanding aconteceu no dia 26 de novembro, na AESE Business School, em Lisboa e foi dedicado ao tema:As exportações portuguesas em 2020; condições para a recuperação das empresas e da economia”.

Pedro Ferraz da Costa, Presidente do Forum para a Competitividade, na abertura dos trabalhos chamou a atenção para a “necessidade de reprogramar o Portugal 2020. “Se pensarmos que estão por utilizar cerca de 15 mil milhões, verbas que acabam no fim do ano, mas podem ainda ser utilizadas nos próximos 3 anos, se conseguirmos ir buscar 20% do valor não aplicado, já seria 3 mil milhões, o que permitiria fazer muitas coisas úteis que sirvam para esta fase final do programa e para a próxima fase”, disse. Referiu ainda o que está a ser feito a nível estratégico para a valorização da indústria portuguesa com vários programas, desde requalificação tecnológica, de competências e de nível financeiro, o mote certo para passar a palavra ao responsável da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal.

Luís Castro Henriques, Presidente da AICEP, foi o keynote speaker deste workshop com uma intervenção sobre “A situação das empresas exportadoras na atual conjuntura”, em que começou por traçar o panorama da última década: “As empresas exportadoras são empresas com mais saúde e que se revelam mais resilientes neste contexto da pandemia. Nos últimos 10 anos, as exportações nacionais têm vindo sempre a crescer em todos os setores. O que mais cresceu foi o setor automóvel e de componentes, mas isto não aconteceu com prejuízo de nenhum outro setor, pois os tradicionais conseguiram acompanhar”.

Luís Castro Henriques acredita que, mesmo nos tempos próximos e ainda em contexto pandémico, Portugal vai continuar a ganhar quota de mercado em vários países e vai continuar a captar investimento, fazendo valer os fatores competitivos do país: talento; ciência, tecnologia e inovação; sustentabilidade/economia verde; cadeia de valor global. Em 2019 a AICEP conseguiu captação de investimento em projetos de I&DT no valor de 177 milhões de euros e a criação de 7.245 postos de trabalho, um crescimento considerável, quando comparando com os 80 milhões euros e 4.082 postos de trabalho de 2016. Para 2021, a agência já conseguiu angariar mais 23 projetos de investimento, que vão criar 190 postos de trabalho, sendo as tendências do investimento nas áreas dos centros de competências, setor automóvel, indústria eletrónica e aeroespacial.

No painel de debate moderado pelo Vice-Presidente do Forum para a Competitividade, Jaime Esteves, o tema em destaque foi a recuperação. Sob o tema “Condições para a recuperação das empresas e da economia, designadamente a fiscalidade e os custos de compliance, o debate começou com a visão do Grupo Jerónimo Martins – um dos patrocinadores do projeto Exportadoras Outstanding – sobre a atual realidade económica.

José António Nogueira de Brito, Chief Commercial Officer e Responsável por Relações Institucionais do Grupo Jerónimo Martins afirmou: “Quando se tornou claro que muitas coisas que tiveram que mudar com a pandemia, vieram para ficar e não são passageiras, faz-nos confusão que se continue a focar os grandes apoios na manutenção dos postos de trabalho. Esta tónica na manutenção do emprego não nos parece a mais correta, ao contrário, o incentivo à criação de emprego continua a não ser uma realidade”. Defendeu ainda que deviam ser considerados prazos mais alargados para a recuperação de prejuízos e lamentou o facto de “este orçamento ser muito pouco focado nas empresas e, ao contrário, na manutenção e agravamento de muitas taxas e taxinhas”.

Neste sentido, também Jaime Esteves sublinhou a importância da proposta do Forum para a Competitividade de o Governo autorizar o reporte fiscal dos prejuízos de 2020 e 2021 com efeitos retroativos permitindo, dessa forma, uma injeção imediata de liquidez quando as empresas viáveis mais necessitam.

As Lojas Francas de Portugal, uma das empresas participantes no projeto Exportadoras Outstanding, fizeram-se representar por José Carlos Rosa, Administrador Delegado, que explicou que vão fechar o ano com uma quebra de cerca de 60% de vendas em relação a 2019 devido à grande quebra no setor das viagens. “Os indicadores para o futuro são uma incógnita terrível. Os cenários mais otimistas indicam que os níveis de tráfego aéreo vão voltar ao que eram em 2019 só em meados de 2024/2025, isto se a vacina for implementada até ao verão de 2021, se o processo for atrasado, o retomar pode ser muito mais lento. Além disso, há um segmento que, muito provavelmente, nunca vai atingir os níveis anteriores, que é o segmento business e esse é o passageiro que gasta mais nas lojas”, disse.

Para as exportações continuarem a crescer é essencial reforçar a capacidade instalada produtiva, dar dimensão às empresas e também flexibilizar as leis do trabalho. O Professor na área de Estratégia e Internacionalização da AESE Business School, Pedro Leão, reforçou a ideia:O tecido empresarial português é composto por 99.9% de PME’s, não temos quase nenhumas empresas médias e muito poucas grandes e isso torna-se complicado para a nossa competitividade lá fora”.

Sobre as leis laborais, referiu que é premente ajustar as leis, nomeadamente para regular a realidade do trabalho remoto, e também ganhar alguma flexibilidade. “Não vale a pena obrigar as empresas a contratarem e manterem os postos de trabalho, quando por vezes, já não conseguem manter os postos de trabalho que têm atualmente”, disse. Terminou, chamando a atenção para a aplicação que será dada à “bazuca” de dinheiro que chegará da Europa: Vai haver uma injeção de verbas muito grande, será que vamos ter capacidade de executar estes fundos? E com que rapidez?”.

Fica a questão a que a definição de políticas para os próximos meses dará resposta.